Posts longos


Aconteceu segunda-feira. Domingo teve almoço de comemoração com os amigos queridos que puderam estar presentes. Uma das amigas trouxe até presente!

Gifted

Chegando em casa na volta do almoço teve bate-papo com a mãe, tentar distrair do nervoso. Eu pensei que ia lidar com essa mudança muito mais tranqüilamente. Eu não vou ser hipócrita não. Pra nenhum dos dois lados. Eu só tirei a cidadania britânica porque a lei assim me obriga a fazer pra morar onde eu bem entendo no momento. Se eu pudesse continuar aqui com o meu passaporte brasileiro, provavelmente não teria me dado ao trabalho, nem gasto o dinheiro (que não é pouco) pra conseguir mais esse pedaço de papel na minha vida. Mal sabia eu que o que me esperava na volta da cerimônia era muito mais que um pedaço de papel.

Mas confesso que fiquei nervosa. O fato de virar cidadã de outro país me fez pensar no meu passado, de tudo que vivi pra chegar aqui, desde a “desmamada da mãe”  (e isso inclui pai, irmãos, amigos) já que eu sempre fui caseira, tímida e anti-social pra vir morar num país gelado. Talvez pra quem tem espírito aventureiro ou quem teve outra cidadania automaticamente por parentesco, o impacto não tenha sido tão grande.

Mas comigo foi diferente. O processo, por lei, exige que a pessoa tenha morado aqui legalmente e com visto de residência por no mínimo 5 anos. O meu primeiro ano foi sob visto de turista, os 5 anos do meio foram vividos felizes, sem grandes surpresas e recheados de viagens. Mas os dois últimos foram esperando a decisão do Home Office (equivalente à Polícia Federal no Brasil) sobre o meu visto permanente. E junto com esses dois anos, a separação. O que resultou num processo longo, duvidoso, com períodos de incerteza, tristeza, mudanças, alegrias e a vida voltando ao normal novamente (clique aqui pra ler a história toda) clichê , eu sei, mas a verdadeira montanha russa.

Acho que tudo isso me fez perceber que eu estava conseguindo essa cidadania pelo meu próprio mérito. De ter compensado as coisas ruins que aconteceram com as coisas boas. Ter resistido fazer as malas e partido pra debaixo da saia da mãe como o instinto mandava. Ter tido paciência e a certeza que tudo dá certo no final. E deu!

O nervosismo bateu de leve, o sono foi um pouco agitado, mas consegui descansar. Antes de dormir aprendi e ensaiei o primeiro verso do hino da Grã-Bretanha (que é o que é cantado em atos oficiais). Enrolei com o “Long live our Noble Queen” até a hora que entendi o Mr. J cantando “purple Queen” e agora nunca mais esqueço :)

Segunda acordei mais calma e sonolenta. Tomei banho, arrumei o cabelo, maquiagem, coloquei o brinquinho do Brasil (na carta-convite eles explicavam que podia ir de traje do país, mas eu não tinha fantasia de Carnaval, nem roupa de Bahiana comigo :-D ) os sapatos que minha mãe me deu quando fui ao Brasil na última vez.

Stepping forward

O trajeto deveria demorar 15 minutos segundo o GPS, e foi o que demorou. Chegamos lá com 20 minutos de sobra. Esperamos a Mrs. Q, do lado de fora, eu tava com medo que ela – que normalmente tem medinho de dirigir – ia se enrolar pra estacionar.

Quando deu a hora do Registro, chamaram, fizemos a fila e tínhamos que assinar a lista de presença e preencher o cartão de votação. Sim, agora eu posso votar :-bd Esperamos mais 20 minutos e nos chamaram pra ir pra sala de espera, que tinha toda pompa e circunstância. E mesa da café da manhã, com suquinhos, chá, café e biscoitos.

Waiting Morning hunger

Fomos chamados pra sala onde o evento – que era ainda mais chique que a sala de espera – aconteceria 20 minutos depois. Eu fui a primeira a ser chamada e a primeira a sentar na cadeirinha almofadada. Depois um por um das outras 19 pessoas (eram pra ser 20 mas um rapaz foi mandado de volta pra casa porque tava vestindo jeans e tênis) e por último os convidados – aliás Mrs. Q. chegou no último segundinho antes de começarem a explicação de como tudo aconteceria.

Beth It is happening

A mocinha que conduziu a cerimônia era uma simpatia. Explicou em clima descontraído como tudo ia funcionar e que demoraria uns 5 minutos pra começar. E dali 5 minutos começou.

Ao som de “Rule Brittania” a vice-prefeita da regional entrou na sala. Com roupa oficial (que parecia uma beca de formando, e no pescoço um medalhão em uma faixa verde e amarelo) ela entrou, sentou, deu as boas-vindas e explicou o que significava os novos direitos que estávamos recebendo e as responsabilidades que vinham com eles. No meio do texto, meus olhos encheram de lágrimas. Lágrimas de felicidade.

Era uma vitória eu estar ali. Era a representação viva de que eu consegui resistir o pior que já me aconteceu na minha vida, dei a volta por cima, com a ajuda da minha família, dos meus amigos na Inglaterra, no Brasil, no mundo, e claro, com a companhia sempre paciente, incentivadora, presente, compreensiva e maravilhosa de Mr. J. Eu dei a volta por cima, consegui perceber que tudo que é ruim um dia passa. Mantive, como eles dizem aqui, “os olhos no prêmio” e consegui. O prêmio era conseguir o pedaço de papel pra me deixar ficar aqui. Quando e por quanto tempo quiser. E se quiser ir pra outros países da Europa tentar a vida lá. E proporcionar a chance da minha família vir me visitar quando quiserem. Dos meus sobrinhos – que hoje são crianças – virem visitar a madrinha e a tia Lelei, aproveitar o que a Europa tem de bom pra oferecer, conhecer outras culturas, outros climas, outras comidas…

Meu coração bateu mais forte, e logo tive que voltar a mim. Era hora de levantar e dizer meu nome. Inteiro. Pra quem não sabe, eu tenho 5 nomes. Era o mais longo da turma, claro. Como sempre foi. E eu falei em tom alto e orgulhoso, um por um. E sentei. Sequei as lágrimas. Ouvi todo mundo falar seus nomes. Quando o último terminou, era hora do juramento. Juramos – todos em uma só voz – obedecer às leis da Rainha e seu Reino. Proteger à Rainha e aos seus herdeiros. Sentamos.

E chegou a hora de finalmente pegar o pedaço de papel tão esperado, tão suado, tão chorado, tão comemorado. Eu fui a primeira. Chamaram meu nome e o país de onde venho. O país que divide meu coração e que me faz falar que vou “pra casa” quando vou passar férias na terra tupiniquim. Peguei o papel e foi como se não estivesse ali. Tava mesmo? Era verdade?

Era. Sentei. Li o certificado. Abri a pastinha. Dentro dela um porta-passaportes pra quando eu pegar meu passaporte bordô, instruções de como assim o fazer e uma cartinha da Secretária do Home Office. Era verdade.

Todo mundo foi chamado um a um. Quando terminou, recebemos os parabéns. E cantamos o hino. A vice-prefeita fazia sinais animados para cantarmos mais alto. Gritei o hino, assassinei o coitado, mas a felicidade era grande demais pra me importar em não fazer feio.

Salva de palmas. Sair da sala. Beijo na bebê L. e na Mrs. Q mãe dela. Mais fotos. Tira foto do papel pra provar que é de verdade se alguém duvidar :-D

Mrs Q. precisou ir embora porque a faxineira a esperava (na verdade não esperava porque ligou depois falando que tava doente) mas eu tava tão feliz que ela tava lá. Ela é uma das minhas amigas daqui que considero como irmã mesmo.

Mr J e eu fomos a um restaurante italiano que oferece desconto na hora do almoço. Comemos lula à milanesa de entrada e pasta de prato principal. Paramos no supermercado comprar janta. Hora de voltar pra casa.

Mandei fotos pros amigos e pra família. Sem eles eu não teria tido essa conquista. Infelizmente algumas pessoas que foram parte da jornada (e aquela pessoa que foi a responsável pela minha vinda pra cá) tiveram que ficar de fora da comemoração, em conseqüências de seus próprios atos e acima de tudo suas escolhas de terem cortado os laços comigo. Triste, mas eu entendo, aceito, e sigo minha vida feliz, sem rancor e sem mágoas. Não há tempo nem energia para o passado que quis ficar pra trás quando o presente é tão gratificador.

E comecei a trabalhar. Como se fôsse qualquer outro dia qualquer. Mas qualquer outro dia qualquer, isso não foi.

Agora, sou uma Brasileira, com dupla cidadania Britânica. Sou cidadã de dois lugares. Um que me acolheu por 21 anos como meu lar, meu berço, e ainda me acolhe nas horas que a saudade aperta. E o outro que escolhi por 8 anos (até agora) como minha morada, meu futuro, até quando, e se, a vida virar outra esquina novamente.

\:D/

Sábado foi o casamento de T&A, um casal de amigos de Mr. W – vulgo Mr.J   ;)) . Aliás, posso falar que ela é muito fofa porque ela é sempre simpática comigo. No casamento de N&F depois de uns vinhos a mais, ela falou pro Mr. W enquanto eu não tava perto que se ele  me largasse um dia, ela me adotaria. :> O marido dela nunca se enturmou muito comigo eu acho que nem lembro da voz dele, mas ele é simpático também e pelo menos nunca me olhou torto ou de forma julgadora, o que no meu mundo sigifica que é gente de paz e é permitido ser meu amigo, até que e se provar o contrário.

Foi a T que me chamou pra despedida de solteira dela, a hen night. Aqui não existe essa de chá de cozinha só com as amigas onde tem brincadeira e castigos. Aqui a mulherada sai pra farra mesmo, do mesmo jeito que os homens. É uma última noite de solteira, onde elas – normalmente –  bebem, vestem algo engraçado (as outras meninas podem vestir algo engraçado também ou não é opcional). No caso dela, as bridesmaids arrumaram essa fantasia de banana!

A noite  da hen night começou às 5 da tarde em um pub no Centro de Londres. Foi lá que mandaram ela colocar a fantasia (que aliás ela a-mou!) distribuíram as bugigangas (tinha apito em formato de pênis, canudinho em formato de pênis e bicos de galinha de plástico pra gente vestir como máscara* Porque hen é galinha em inglês). Quando todo mundo tava lá, chegou o macacão :) Um stripper vestido de gorila. Ele era um negro super em forma e simpático, fez o strip, fez brincadeira com ela, e todo mundo caindo na risada é claro.  De lá fomos – de limousine, minha primeira vez em uma aliás, e adorei ir de turma assim, continuar a festa mesmo mudando de lugar – pra outros pubs, as meninas bebendo, conversando com estranhos (aliás inglês – normalmente  – só fala com estranhos quando tá bêbado ou tá no pânico mesmo), rindo, se divertindo muito.  Depois do último pub, fomos pra um club dançar. Tirei a barriga da miséria, fazia muito tempo que queria sair dançar e dancei muito! Teve até o momento que quase nos expulsaram porque a T queria participar do concurso de dança no palco e eles não queriam deixar :-< Mas conseguimos convencê-los a deixar a gente ficar lá e ela só teve que tirar a fantasia.

Na volta pra casa a limo me deixou em casa, e eu tinha conhecido mais uma turminha de meninas bacanas. Sempre um saldo positivo!

Isso tudo foi no mês passado, Sábado foi o dia do casamento. Como eu falei no post anterior, só fomos convidados pra festa desse casamento. Chegamos atrasados, de novo. Assumimos que o almoço seria tarde como sempre  e como não tinha o horário que a noiva ia chegar da cerimônia no convite, decidimos sair do hotel mais tarde, mas tomar um café da manhã reforçado.

Ledo engano, chegamos lá quando eles já estavam sentando pra comer, à 1:30 da tarde! Perdemos a chegada na noiva na entrada do local (que foi o “quintal” da casa dos pais dela) mas conseguimos sentar com a turminha. O estilo foi picnic, mas tinha uma tenda de circo, e mesas e cadeiras de madeira. Sentamos apertadinhos uns do lado do outro.

Serviram frios, pães, frutas, e na mesa novamente vinho e água. Não comi muito porque ainda estava cheia do café da manhã, mas belisquei uma torta de porco deliciosa e uns quiejinhos e uvas. E chegou a hora dos dicursos. O pai da noiva foi fofo, contou a história de como ela sempre foi criativa (ela trabalha como figurinista pra TV e filmes) e lembrou das pessoas que não podiam estar ali, e as pessoas que vieram de longe.

Pausa pro bolo!

E volta pros discursos! Nesse teve discurso das bridesmaids (foram só duas, e elas não se vestiram iguais) que foi engraçado. As duas amigas lembraram de momentos do passado da noiva, incluindo a hen night. E contaram o fato que ela mostrou a bunda pela janela da limo, o que aparentemente é normal pra ela :)) ! Teria bem mais histórias pra contar, mas melhor deixar pra lá pra preservar a garota, no que ainda dá, hehe.

O discurso do noivo foi fofo, ele contou como a conheceu, mas com detalhes do que ele sentia e como foi difícil quando ele teve que ir morar na Austrália, e listou as qualidades dela e como ele queria ficar com ela pra sempre.
Daí o best man (nesse não teve usher) fez o discurso dele, foi engraçadinho mas teve muita piada redicularizando casamento, o que eu não gosto [-( Sempre acho que acaba colocando no subconsciente dos homens que casamento é uma coisa ruim, e trazendo mais problemas depois no futuro, se o marido fôr meio cabeça-fraca.

Aliás, esqueci de contar no último post, a cada fim de discurso tem sempre o brinde de champagne, e o golinho pra trazer sorte :-j
Depois dos discursos todo mundo se levantou e foi pro quintal, e tinha uma carrocinha servindo sorvetes caseiros. Comi um de rum com passas, meu favorito e super difícil de achar na Inglaterra =P~

Conversamos um pouco, dancei um pouco (eles só tiveram DJ, e as músicas estavam meio devagar), dancei mais um pouco e os noivos foram dançar a primeira dança. Dançaram Crazy do Gnarls Barkley – achei super bacana!
Daí a noite foi de ficar dançando um pouco, conversando um pouco, trocando grupinhos de amigos, conversei com as meninas que conheci na hen night todas super fofas comigo. Às 7:30 da noite mais ou menos chegou a carroça do Fish And Chips! De novo algo descontraído pra noite. O bar foi de graça, tinha vinho, refrigerante, alco pops (bebidas de garrafinhas tipo Sminorff Ice).

À noitinha nos reúnimos ao redor da fogueira, tentando ver a chuva de estrela cadente que ainda estava acontecendo. Mas eu não vi nenhuma (tudo bem porque vi 4 na quarta-feira!) conversamos com o povo, que foi pro hotel de ônibus que os noivos pagaram, mas Mr. W decidiu voltar pra Londres e descansar.

 

 

*Clique em qualquer foto para vê-la maior*

Powind Kale bed

O caminho pro casamento já era demais. Tinha as wind farms que eu acho lindas!

Starter or desert Someone murdered the cheese!

Nesse casamento não teve muitas flores na mesa só o potinho de vidro, mas achei gracioso mesmo assim, ainda mais porque combinava com os noivos que são simples e sem frescura. E alguém matou o queijo!
Edible panda in a box Snow top
Cada mesa tinha seu próprio bolo, com imagens dos fantoches que a T fez quando era criança ainda! O bolo era de frutas com cobertura de marzipan e açucar-glacê.
Light bubbles Candle paper love
Pra noite tinha luzes no teto do Circo e velas em saco de papel no quintal…

Mille hot hot hot Blue flame B&W hot stuff

Minha fascinação por fogo é a mesma que por luzes. Por isso é sempre uma dúvida qual foto escolher

Tínhamos outro casamento pra ir na semana que vem, mas já temos compromisso, segredo por enquanto :-P

É assim que depois do dia 23 de Agosto eu vou passar a colocar minha cidadania nos formulários que me perguntarem qual é a minha cidadania.

A novela da imigração foi longa, dolorosa e difícil, mas como tudo nessa vida, acabou bem e agora olhando pra trás consigo ver que tudo foi a seu tempo.

Explicando a minha história pra quem caiu de pára-quedas ou não é amigo próximo, a novela começou quando eu cheguei aqui há 8 anos atrás. Os planos eram de fazer uma pós-graduação e ir ficando até ficar ruim, quando ou voltaria pro Brasil ou iria pra outro lugar. Fiz a pós em dois anos, e me encontrei em um lugar que me sentia em casa.

Já expliquei antes os “porques” de me sentir em casa aqui, mas como foi em inglês, explico de novo. Em português e de um jeito diferente :)

Tem gente que mora aqui e odeia o clima frio, cinzento, úmido e escuro. Aqui eu me sinto em casa porque eu adoro tempinho ameno, o frio não me incomoda, e o calor me irrita (literamente, irrita a pele, o cabelo cai, ataca bronquite e sinusite).
Tem gente que mora aqui e odeia estar longe de uma praia decente. Aqui eu me sinto em casa porque eu não cresci perto de mar e na verdade sempre preferi a selva de pedra, a estrada e o interior.
Tem gente que mora aqui e sente falta da tribo de amigos sempre disponíveis a qualquer hora do dia, de qualquer dia, pra fazer qualquer coisa. Aqui eu me sinto em casa, porque no fundo no fundo eu sou um ser anti-social: sou caseira, sou reservada, sou tímida e discreta. Aqui eu me sinto em casa porque o jeito de pensar, agir, trabalhar, festejar aqui tem tudo a ver comigo.
Tem gente que mora aqui e odeia a saudade da comida caseira, dos sabores deliciosos e frescos de outros lugares. Aqui eu me sinto em casa porque gosto de tudo e qualquer coisa que colocarem no meu prato de comida e aprendi que aqui dá sim pra ter comidinha deliciosa tanto quanto em qualquer lugar do mundo.

Tem gente que mora aqui e odeia os dentistas e os médicos. Mas eu visito meus maravilhosos dentista e médico brasileiros toda vez que vou fazer visitinha, e pra falar a verdade os médicos aqui até que não são tãaao ruins quanto algumas pessoas pintam. E lembrem, médico e hospital aqui é de graça. Pra todos. Então na hora de comprar tem que se comparar auxílio gratuito de lá com o de cá…

E então, depois dos dois anos, e me sentindo em casa, fui resolvendo ficar. A lei falava que eu teria que ficar mais três para adquirir a cidadania, e dois anos se passaram tão rápido, a saudade estava sendo administrada com viagens ao Brasil uma vez por ano (às vezes duas!), conversas na webcam, passeios pelos 4 cantos da Europa, dia-a-dia toma conta, a gente vai se acostumando…

Quando faltavam 2 meses para completar os 5 anos e pedir minha residência permanente, minha vida virou de ponta-cabeça, e a vontade de largar tudo e todos para trás, voltar para a barra da saia da mãe foi grande. Mas com a ajuda de amigos maravilhosos, e da minha mãe também, que sempre largava tudo que tava fazendo pra falar comigo assim que eu gritasse, me forcei a agüentar a barra, a lei dizia que a residência permanente deveria sair em menos de 6 meses para todos que a pedissem, então fiquei e esperei.
Depois dos primeiros 3 meses (sempre os mais difíceis em qualquer mudança) conheci Mr. J, que passou a ser minha companhia nas noites de inverno longas, geladas e insônes. Naquele final de ano ainda tentei desvirar a vida, e não fui pro Brasil. Mas aprendi que uma vez o caldo entornado, não tem mais volta mesmo. E aprendi que virar a vida de ponta-cabeça às vezes significa colocar tudo no lugar ;) Mr. J e eu percebemos que não dava mais pra passar noites longas, frias e insônes longe um do outro, e pra evitar ser seqüestrada pras Ilhas Maurícius, acabei indo em paz para seus braços :-D

Mas o comichão da saudade apertava. Completei um ano sem ir pro Brasil, e a saudade doía cada vez mais. Esperei mais 6 meses, e em Outubro de 2009 o Home Office (um órgão equivalente a Polícia Federal da Inglaterra) pediu meu passaporte de volta, para completar o processo. Eu então me empolguei, me preparei minha mente e meu coração para passar o Natal com a minha família querida no Brasil, depois de praticamente dois anos longe. Mas adivinhem? Novela não é novela sem drama e tive que cancelar a viagem em cima da hora, porque o Home Office não liberou o passaporte (e a residência) a tempo. Tive um Natal maravilhoso com a família de Mr. J, e um ano novo feliz rindo com meus amigos em um clube de comédia, o que prova que sempre algo bom mesmo quando tudo parece estar indo errado…

Umas duas semanas depois do ano novo meu passporte chegou, finalmente, mas não sem antes passar pelo último drama. Por causa da nevasca do pior inverno dos últimos tempos, o correio não entregou os passaportes no dia, fui buscar na central de entregas e tinham trancado os passaportes em outro prédio ~x( Tive que esperar dois dias até o correio entregar os passaportes de novo.

E pra minha felicidade, os passaportes chegaram lindos e inteiros, e dentro deles um novo carimbo contendo a permissão de que eu poderia viver nesse país permanentemente. Mas… Esse carimbo (que na verdade é um adesivo) teria que ser renovado em 10 anos. Então decidi acabar com a novelinha Imigração de uma vez por todas e comecei a nova empreitada.

Estudei pra prova por 4 meses (uns dias mais pesados que outros, cheguei até a levar o material pro Brasil quando finalmente consegui ir em Abril \:D/ mas nem encostei nas apostilas) , prestei e passei dia 22 de Maio. Dia 12 de Junho fui no serviço que verifica toda a documentação para pedir a cidadania Britânica, e mandei o formulário junto com a cópia de evidências e mais evidências de que estava morando há 8 anos aqui legalmente.

Esperava que o processo demoraria, no mínimo, os 6 meses que é o máximo previsto para cidadania. Mas para minha surpresa depois de 5 semanas, recebi a carta explicando que tinha sido aprovada e que assim que jurasse fidelidade à Rainha, poderia ser considerada uma cidadã da Grã-Bretanha. <:-P

Então dia 23 de Agosto, estarei lá jurando fidelidade à Rainha, e prometendo seguir todas às suas leis.

Isso será muito mais do que conseguir um passaporte para ficar no país que escolhi como meu lar. Será uma vitória por cima de tudo que eu passei, os momentos de escuridão, sem saber como minha vida ia ficar, pra onde iria e como iria. É uma vitória conseguir tomar as rédeas do meu futuro, não depender de ninguém me falando quando, onde e como posso ficar no lugar que EU escolhi ficar, pelos motivos que EU assim escolhi também.

Tem gente que é Britânica e não entende como é que eu consegui deixar a minha família e meus amigos pra trás. E eu explico que com a internet hoje em dia eu falo muito mais com eles do que quando estava no Brasil. Que e-mails, MSN, Skype, webcam são ferramentas sem as quais eu não sei se conseguiria viver sem.

A convivência com a minha família e meus amigos, aquela coisa de dar risada juntos, chorar juntos, brigar, fazer barraco, fazer as pazes, brincar com meus sobrinhos, abraçar (sou uma viciada em abraços), beijar (adoro beijos também) sentir a pele e o cheiro dos meus queridos é a única coisa que me corta o coração em minhas decisões.

Mas quando todo mundo tá espalhado pelo país e pelo mundo, quando todo mundo está ocupado com suas próprias vidas e felizes e orgulhosos em te ver realizada por estar vivendo em lugar que você chama de casa, contente nos braços de um parceiro amigo, honesto, fiel, que faz de tudo pra te fazer uma pessoa feliz, percebi que a presença física no país não importava mais.

Quando minha prima disse que fala mais comigo e me vê mais vezes do que ao meu irmão, que mora lá em São Paulo, quando minha mãe costumava dizer que falava mais comigo do que com a minha irmã que morava no prédio da frente, quando meus amigos trocam e-mails ou falam(digitam) comigo no MSN ou Skype praticamente todos os dias (ou pelo menos todas as semanas), percebo que a presença física no país não importa mais. Quando minhas tias me mandam mensagens lindas dizendo o quanto me querem bem, percebo que a presença física no país não importa mais. Quando minha irmã e eu nos aproximamos como nunca antes, por email e pelo telefone, percebo que a presença física no país não importa mais. Quando brinco com minha sobrinha-afilhada e meu sobrinho querido pela webcam, percebo que a presença física no país não importa mais.

Que tudo que preciso é renovar os abraços, os cheiros, o toque de pele com pele sempre que puder pegar o avião e viajar 11 horas para vê-los ao vivo…

Aqui, por enquanto, me sinto em casa. Não nego que no futuro as coisas possam mudar. E talvez meus sentimentos mudem e eu queira me mudar, ou voltar pra Passargada ou pra outros ares. Mas enquanto tá bom eu vou ficando, como já dizia há 8 anos atrás….

Me tornar Britânica é eu me tornar livre para ir e vir, fechar esse capítulo de ter que dar satisfação ou depender de quem quer que seja (Governo ou pessoas) de me deixar viver como EU escolhi viver.

E pra isso, como qualquer liberdade, não tem preço.

Nunca deixarei de ser Brasileira, em muitos aspectos, mas isso fica pra outro dia que esse aqui já ficou maior do que deveria! :-D


Próximo post: Os dois casamentos que fui nesse final de semana (e a despedida de solteira duas semanas atrás) e mais notícias sobre o novo cafofo.

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