É assim que depois do dia 23 de Agosto eu vou passar a colocar minha cidadania nos formulários que me perguntarem qual é a minha cidadania.

A novela da imigração foi longa, dolorosa e difícil, mas como tudo nessa vida, acabou bem e agora olhando pra trás consigo ver que tudo foi a seu tempo.

Explicando a minha história pra quem caiu de pára-quedas ou não é amigo próximo, a novela começou quando eu cheguei aqui há 8 anos atrás. Os planos eram de fazer uma pós-graduação e ir ficando até ficar ruim, quando ou voltaria pro Brasil ou iria pra outro lugar. Fiz a pós em dois anos, e me encontrei em um lugar que me sentia em casa.

Já expliquei antes os “porques” de me sentir em casa aqui, mas como foi em inglês, explico de novo. Em português e de um jeito diferente :)

Tem gente que mora aqui e odeia o clima frio, cinzento, úmido e escuro. Aqui eu me sinto em casa porque eu adoro tempinho ameno, o frio não me incomoda, e o calor me irrita (literamente, irrita a pele, o cabelo cai, ataca bronquite e sinusite).
Tem gente que mora aqui e odeia estar longe de uma praia decente. Aqui eu me sinto em casa porque eu não cresci perto de mar e na verdade sempre preferi a selva de pedra, a estrada e o interior.
Tem gente que mora aqui e sente falta da tribo de amigos sempre disponíveis a qualquer hora do dia, de qualquer dia, pra fazer qualquer coisa. Aqui eu me sinto em casa, porque no fundo no fundo eu sou um ser anti-social: sou caseira, sou reservada, sou tímida e discreta. Aqui eu me sinto em casa porque o jeito de pensar, agir, trabalhar, festejar aqui tem tudo a ver comigo.
Tem gente que mora aqui e odeia a saudade da comida caseira, dos sabores deliciosos e frescos de outros lugares. Aqui eu me sinto em casa porque gosto de tudo e qualquer coisa que colocarem no meu prato de comida e aprendi que aqui dá sim pra ter comidinha deliciosa tanto quanto em qualquer lugar do mundo.

Tem gente que mora aqui e odeia os dentistas e os médicos. Mas eu visito meus maravilhosos dentista e médico brasileiros toda vez que vou fazer visitinha, e pra falar a verdade os médicos aqui até que não são tãaao ruins quanto algumas pessoas pintam. E lembrem, médico e hospital aqui é de graça. Pra todos. Então na hora de comprar tem que se comparar auxílio gratuito de lá com o de cá…

E então, depois dos dois anos, e me sentindo em casa, fui resolvendo ficar. A lei falava que eu teria que ficar mais três para adquirir a cidadania, e dois anos se passaram tão rápido, a saudade estava sendo administrada com viagens ao Brasil uma vez por ano (às vezes duas!), conversas na webcam, passeios pelos 4 cantos da Europa, dia-a-dia toma conta, a gente vai se acostumando…

Quando faltavam 2 meses para completar os 5 anos e pedir minha residência permanente, minha vida virou de ponta-cabeça, e a vontade de largar tudo e todos para trás, voltar para a barra da saia da mãe foi grande. Mas com a ajuda de amigos maravilhosos, e da minha mãe também, que sempre largava tudo que tava fazendo pra falar comigo assim que eu gritasse, me forcei a agüentar a barra, a lei dizia que a residência permanente deveria sair em menos de 6 meses para todos que a pedissem, então fiquei e esperei.
Depois dos primeiros 3 meses (sempre os mais difíceis em qualquer mudança) conheci Mr. J, que passou a ser minha companhia nas noites de inverno longas, geladas e insônes. Naquele final de ano ainda tentei desvirar a vida, e não fui pro Brasil. Mas aprendi que uma vez o caldo entornado, não tem mais volta mesmo. E aprendi que virar a vida de ponta-cabeça às vezes significa colocar tudo no lugar ;) Mr. J e eu percebemos que não dava mais pra passar noites longas, frias e insônes longe um do outro, e pra evitar ser seqüestrada pras Ilhas Maurícius, acabei indo em paz para seus braços :-D

Mas o comichão da saudade apertava. Completei um ano sem ir pro Brasil, e a saudade doía cada vez mais. Esperei mais 6 meses, e em Outubro de 2009 o Home Office (um órgão equivalente a Polícia Federal da Inglaterra) pediu meu passaporte de volta, para completar o processo. Eu então me empolguei, me preparei minha mente e meu coração para passar o Natal com a minha família querida no Brasil, depois de praticamente dois anos longe. Mas adivinhem? Novela não é novela sem drama e tive que cancelar a viagem em cima da hora, porque o Home Office não liberou o passaporte (e a residência) a tempo. Tive um Natal maravilhoso com a família de Mr. J, e um ano novo feliz rindo com meus amigos em um clube de comédia, o que prova que sempre algo bom mesmo quando tudo parece estar indo errado…

Umas duas semanas depois do ano novo meu passporte chegou, finalmente, mas não sem antes passar pelo último drama. Por causa da nevasca do pior inverno dos últimos tempos, o correio não entregou os passaportes no dia, fui buscar na central de entregas e tinham trancado os passaportes em outro prédio ~x( Tive que esperar dois dias até o correio entregar os passaportes de novo.

E pra minha felicidade, os passaportes chegaram lindos e inteiros, e dentro deles um novo carimbo contendo a permissão de que eu poderia viver nesse país permanentemente. Mas… Esse carimbo (que na verdade é um adesivo) teria que ser renovado em 10 anos. Então decidi acabar com a novelinha Imigração de uma vez por todas e comecei a nova empreitada.

Estudei pra prova por 4 meses (uns dias mais pesados que outros, cheguei até a levar o material pro Brasil quando finalmente consegui ir em Abril \:D/ mas nem encostei nas apostilas) , prestei e passei dia 22 de Maio. Dia 12 de Junho fui no serviço que verifica toda a documentação para pedir a cidadania Britânica, e mandei o formulário junto com a cópia de evidências e mais evidências de que estava morando há 8 anos aqui legalmente.

Esperava que o processo demoraria, no mínimo, os 6 meses que é o máximo previsto para cidadania. Mas para minha surpresa depois de 5 semanas, recebi a carta explicando que tinha sido aprovada e que assim que jurasse fidelidade à Rainha, poderia ser considerada uma cidadã da Grã-Bretanha. <:-P

Então dia 23 de Agosto, estarei lá jurando fidelidade à Rainha, e prometendo seguir todas às suas leis.

Isso será muito mais do que conseguir um passaporte para ficar no país que escolhi como meu lar. Será uma vitória por cima de tudo que eu passei, os momentos de escuridão, sem saber como minha vida ia ficar, pra onde iria e como iria. É uma vitória conseguir tomar as rédeas do meu futuro, não depender de ninguém me falando quando, onde e como posso ficar no lugar que EU escolhi ficar, pelos motivos que EU assim escolhi também.

Tem gente que é Britânica e não entende como é que eu consegui deixar a minha família e meus amigos pra trás. E eu explico que com a internet hoje em dia eu falo muito mais com eles do que quando estava no Brasil. Que e-mails, MSN, Skype, webcam são ferramentas sem as quais eu não sei se conseguiria viver sem.

A convivência com a minha família e meus amigos, aquela coisa de dar risada juntos, chorar juntos, brigar, fazer barraco, fazer as pazes, brincar com meus sobrinhos, abraçar (sou uma viciada em abraços), beijar (adoro beijos também) sentir a pele e o cheiro dos meus queridos é a única coisa que me corta o coração em minhas decisões.

Mas quando todo mundo tá espalhado pelo país e pelo mundo, quando todo mundo está ocupado com suas próprias vidas e felizes e orgulhosos em te ver realizada por estar vivendo em lugar que você chama de casa, contente nos braços de um parceiro amigo, honesto, fiel, que faz de tudo pra te fazer uma pessoa feliz, percebi que a presença física no país não importava mais.

Quando minha prima disse que fala mais comigo e me vê mais vezes do que ao meu irmão, que mora lá em São Paulo, quando minha mãe costumava dizer que falava mais comigo do que com a minha irmã que morava no prédio da frente, quando meus amigos trocam e-mails ou falam(digitam) comigo no MSN ou Skype praticamente todos os dias (ou pelo menos todas as semanas), percebo que a presença física no país não importa mais. Quando minhas tias me mandam mensagens lindas dizendo o quanto me querem bem, percebo que a presença física no país não importa mais. Quando minha irmã e eu nos aproximamos como nunca antes, por email e pelo telefone, percebo que a presença física no país não importa mais. Quando brinco com minha sobrinha-afilhada e meu sobrinho querido pela webcam, percebo que a presença física no país não importa mais.

Que tudo que preciso é renovar os abraços, os cheiros, o toque de pele com pele sempre que puder pegar o avião e viajar 11 horas para vê-los ao vivo…

Aqui, por enquanto, me sinto em casa. Não nego que no futuro as coisas possam mudar. E talvez meus sentimentos mudem e eu queira me mudar, ou voltar pra Passargada ou pra outros ares. Mas enquanto tá bom eu vou ficando, como já dizia há 8 anos atrás….

Me tornar Britânica é eu me tornar livre para ir e vir, fechar esse capítulo de ter que dar satisfação ou depender de quem quer que seja (Governo ou pessoas) de me deixar viver como EU escolhi viver.

E pra isso, como qualquer liberdade, não tem preço.

Nunca deixarei de ser Brasileira, em muitos aspectos, mas isso fica pra outro dia que esse aqui já ficou maior do que deveria! :-D


Próximo post: Os dois casamentos que fui nesse final de semana (e a despedida de solteira duas semanas atrás) e mais notícias sobre o novo cafofo.